Asma Brônquica

Doença inflamatória crónica dos brônquios

Nota histórica relativamente à asma brônquica

Antiguidade

2600 a.C. - A asma foi descrita no livro médico “A Teoria do Interior do Corpo”, conhecido como Nei Ching. Considerado o livro mais antigo de Medicina Interna, foi escrito por Huang-Ti, “o Imperador Amarelo”. Nesta publicação é citada a planta Ma Huang, da qual a efedrina passou a ser extraída no início do século XX.

1550 a.C. - Os papiros de Ebers, descobertos em Tebas, no ano de 1870, pelo egiptólogo alemão George Moritz Ebers (1837-1898), constituem o mais antigo compêndio médico conhecido do Egipto antigo. Neste livro, existem algumas referências à asma aguda, cujo tratamento consistia na utilização de fezes de animais, como as de crocodilo e as de camelo, associados a ervas como a cebola e o meimendro.

Hipócrates (460-370 a.C.) que afastou da medicina os constrangimentos da especulação filosófica e a superstição,   introduzindo seus princípios éticos e científicos, distinguindo a medicina como uma ciência e profissão de grande dignidade, descreveu a asma como um ataque paroxístico, mais severo do que uma simples dispneia. A condição espasmódica da asma era comparada a uma convulsão epiléptica, que era vista como um castigo divino.

Idade Média

Moses ben Maimonides (1135-1204), filósofo judeu e rabino, foi chamado para tratar do Príncipe Al Afdal Nur Din Ali, que desenvolveu asma brônquica tardia, aos 40 anos de idade. Entre as recomendações prescreveu moderação na alimentação, na ingestão de bebidas e na actividade sexual; sugeriu evitar os ambientes poluídos da cidade e, como remédio específico para a doença, prescreveu canja de galinha. Posteriormente veio a escrever o “Tratado de Asma”, onde relatava que a asma poderia ser desencadeada por um resfriado comum, era mais frequente durante a estação das chuvas, e que a poluição do ar da cidade do Cairo poderia em parte ser a responsável pela asma do príncipe. A sua descrição sobre as cidades mencionava: “o ar da cidade é estagnado, turvo, e denso; é o resultado natural de seus grandes edifícios, ruas estreitas, e lixo… Ventos levam o ar para dentro das casas e muitos ficam doentes, com asma, sem se aperceberem disto. A manutenção do ar limpo é a primeira regra para preservar a saúde do corpo e da alma”.

Renascença

Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, mais conhecido como Paracelsus (1493-1541), médico e alquimista suíço-alemão, é conhecido como o “pai da farmacologia e terapêutica”. Paracelsus sustentava que a asma brônquica só poderia ser curada através de preparações líquidas (substâncias químicas) e não por ervas. Para Paracelsus, o enxofre era a droga que secaria o muco no pulmão asmático quando todas as outras formas de tratamento falhassem.

Thomas E Willis (1621-1675)  nasceu em Great Bedwin, uma aldeia de Wiltshire, na Inglaterra. Na asma, foi o primeiro a reconhecer que se tratava de uma doença brônquica, em que ocorria a “contracção do brônquio”.  Foi o primeiro a descrever a broncoconstrição. Willis fez a distinção de um tipo de asma meramente pneumónica, onde todas as vias aéreas estão obstruídas e não estão suficientemente abertas (por secreções, sangue, tumefacção, litíase…), de outra puramente convulsiva, sendo esta de origem nervosa sem  qualquer obstrução brônquica ou compressão, simplesmente devida a cãibras das fibras móveis dos brônquios e dos vasos dos pulmões, diafragma e músculos do tórax.

Em 1698, Sir John Floyer (1649-1734) em seu Tratado de Asma fez referência à predisposição hereditária da doença. Floyer identificou diferentes “espécies” de asma, diferenciando a asma contínua da asma convulsiva ou periódica. Observando as reacções dos pacientes na poluída cidade de Londres, e associando a qualidade do ar aos odores fortes da cidade, foi capaz de distinguir elementos ambientais capazes de desencadear ataques de asma.

Bernardino Ramazzini, é reconhecido como o “pai da medicina ocupacional”. Publicou suas observações no De Morbis Artificium Diatriba. No início do século XVIII, Ramazzini estabeleceu a relação entre poeiras irritantes orgânicas e dispneia e, também com a reacção urticariforme em trabalhadores que manuseavam cereais, tendo descrito  minuciosamente as consequências pulmonares de várias profissões. Relatou  a asma naqueles que manipulavam velhos colchões e roupas velhas empoeiradas - provavelmente infestadas por ácaros da poeira.

Século XIX

Armand Trousseau (1801-1867), famoso médico francês, conhecido pelo Sinal de Trousseau, para o diagnóstico da hipocalcemia (tetania), também contribuiu com seus estudos e observações sobre a doença. Sofria de asma e em certa ocasião descreveu a pior das suas crises: início rápido, com profusa rinorréia, lacrimejante, presença de dispneia e opressão torácica, apresentando melhoras 10 minutos após fumar um charuto. Relatou também que em certos asmáticos bastava a presença de um gato ou coelho no recinto para desencadear a crise. Trousseau era adepto, para o tratamento da doença, do uso do estramónio, cigarros de arsénico, éter, clorofórmio e vapores de nitrato de potássio.

Coube a Henry Hyde Salter (1823-1871), professor-conferencista em fisiologia e posteriormente em medicina no Charing Cross Hospital, introduzir a asma como uma entidade distinta, pois até esta época, o termo asma era utilizado por várias patologias em que a dispneia era o componente principal. Salientou os aspectos hereditários da doença e diferenciou a asma brônquica da asma cardíaca. Em seu livro _On Asthma: Its Pathology and Treatmen _utilizou  na classificação o termo “intrínseco” e fez referência a certas células características da expectoração de asmáticos, posteriormente identificadas como eosinófilos. A utilização de café forte  (cafeína, que é uma xantina) para tratar a asma foi uma indicação de Salter.

1846 - Em 26 de abril de 1846, um dos secretários da Sociedade de Medicina de Londres, Geroge Cursham, M.D., apresentou a leitura de um trabalho do cirurgião__John Hutchinson,_ sob o título  _On The Capacity of The Lungs, and on The Respiratory Functions, quando introduzia o espirômetro, como “um preciso e fácil método de detectar doenças”, publicado na Rev. Med. Chir.Soc. no mesmo ano.

1849 – Marca o início da terapêutica com aerossol, aquando a invenção do nebulizador por Euget-les-Bains.

Século XX

1900 - Publicado o primeiro estudo sobre a utilização do corticóide em asma aguda, por S. Solis-Cohen, que utilizou um extrato bruto de glândula adrenal. 1928 - H. Dekker __foi o primeiro a relacionar ácaro e asma. __1936 - A aminofilina foi utilizada pela primeira vez na asma aguda, em pacientes que não respondiam à adrenalina. Em 1937 G. Hermann et al relataram a eficácia da aminofilina por via endovenosa em 41 casos de asma grave. A dose preconizada era de 480 mg lentamente aplicada, relatando na ocasião poucos efeitos colaterais e intenso alívio da dispneia. 1941 - Síntese da isoprenalina por Heribert Konzett, o primeiro ß-agonista sintético não selectivo, porém sem actuação alfa, e com curta duração de acção (entre 60 a 120 minutos). 1950 - Demonstrado pela primeira vez o poder da cortisona no alívio do estado de mal asmático e controle da asma crónica severa, por Haydon Carryer. Este autor aplicou 100 mg de cortisona por via intramuscular, diariamente, a um pequeno grupo de pacientes, através de estudo duplo-cego controlado, estabelecendo a alta eficácia da droga no tratamento da asma. 1955 - George Maison, então Presidente do Riker Laboratory (hoje 3M Pharmaceuticals), desenvolveu um dispositivo conhecido como spray dosificador, que veio facilitar o controlo da asma. 1959 - Introdução do peak flow meter por  B.M. Wright, instrumento para medir o fluxo  expiratório máximo, durante uma expiração forçada. 1967 - R.E.C. Altounyan foi o primeiro a descrever o efeito inibidor da inalação do cromoglicato de sódio sobre a asma, induzida experimentalmente no homem. O cromoglicato foi a primeira droga para uso profilático na doença. 1972 - Lançada a primeira droga utilizada em grande escala no tratamento tópico da rinite e asma, o dipropionato de beclometasona (DPB). 1974 - Identificação de que outras células além dos leucócitos também produzem citocinas (p. ex. fibroblastos). 1986 - Introdução do nedocromil sódico, do grupo das cromonas, com acção anti inflamatória. 1995 - Introdução na prática clínica da primeira droga antileucotrienos. 1998 - H.U Simon demonstrou que a eosinofilia tecidual associada às doenças alérgicas é consequência de um retardamento na apoptose do eosinófilo. 1999 - Clonagem e caracterização molecular e farmacológica do receptor CysLT1 humano, por K.R Lynch. (Filho, P.).